Muitos coordenadores de CRAS sabem que existe "cofinanciamento federal", mas nem sempre compreendem como o dinheiro chega: qual o mecanismo, qual a relação com seu trabalho no dia a dia, e por que o registro estruturado de atendimentos é, na verdade, questão de financiamento da unidade.
O IGD — Índice de Gestão Descentralizada — é esse mecanismo. É a fórmula que o governo federal usa para decidir quanto de dinheiro cada município recebe por mês para financiar seu SUAS. Quanto melhor o IGD, mais recursos chegam. Quanto pior, menos. E seu CRAS, através do trabalho que faz e do registro que consolida, impacta diretamente esse número.
Como é calculado o IGD
O IGD é uma média ponderada de vários indicadores, mas o mais importante é o Resultado de Gestão do SUAS — RGS, que por sua vez é calculado com base no RMA — Registro Mensal de Atendimentos.
Simplificando: o governo federal compara quantas famílias o município registrou como atendidas no RMA versus quantas famílias de baixa renda (segundo renda domiciliar per capita) existem no município — conforme CadÚnico. Se você atendeu e registrou 30% das famílias referenciadas, seu IGD reflete isso. Se você atendeu mas não registrou, seu IGD não reflete — e você perde dinheiro.
Então: qualidade de RMA é diretamente proporcional a dinheiro que chega ao município.
Outros indicadores do IGD
Além do RGS (baseado em RMA), o IGD considera:
Funcionamento da instância de controle social. O município tem Conselho Municipal de Assistência Social funcionando? Há atas das reuniões? Houve aprovação do Plano Municipal de Assistência Social? Sim = ponto. Não = penaliza IGD.
Estrutura de gestão. Secretário designado? Gestor da assistência definido? Técnico de informação dedicado ao SUAS? Sim = pontos. Muitos municípios pequenos falham aqui, porque não têm equipe suficiente — mas a penalização é clara.
Acompanhamento do Programa Bolsa Família. Se o município tem grupos de condicionalidades, acompanhamento de frequência escolar e saúde das crianças — registrado — isso conta. Se Bolsa Família "acontece sozinho" na secretaria sem articulação com CRAS, não conta ou conta menos.
Cobertura de beneficiários do SUAS. Quantos beneficiários do BPC (Benefício de Prestação Continuada) foram acompanhados pelo CRAS? Quantos do PAIF? Tudo registrado.
O IGD é uma média ponderada: alguns indicadores pesam mais, alguns menos. Mas todos impactam. E quase todos dependem de registro estruturado, que é feito no dia a dia do CRAS.
O impacto na receita municipal
Para ter ideia da magnitude: um município médio pode receber entre cem mil a alguns milhões de reais por mês em cofinanciamento federal da assistência social, dependendo do porte e do IGD. Se o IGD é 0,80 em vez de 0,95, a diferença em repasse anual é significativa — centenas de milhares de reais.
Esses recursos pagam salário de técnico, paga aluguel da unidade, paga transporte para visita domiciliar, paga impressora e papel. Se chegam menos recursos, algo deixa de ser feito.
Muitos CRASs funcionam em prédio apertado, com equipe reduzida, porque o município não tem receita própria para investir — depende do cofinanciamento federal. Quando o RMA é mal registrado, o IGD fica baixo, o cofinanciamento vem baixo, e o ciclo se fecha: menos verba, menos estrutura, menos registro de qualidade, menos IGD.
Por que RMA é a chave
O RMA não é papel que você preenche de um jeito e de outro jeito. Tem definições precisas:
- Um atendimento é o encontro entre técnico e família (ou indivíduo), com escuta, orientação, e registro de resultado.
- Uma acolhida é um atendimento rápido (pode virar encaminhamento imediato) ou pode evoluir para atendimento aprofundado (leva múltiplos encontros).
- Atendimento particularizado é atendimento para família específica, com objetivo de trabalhar dinâmica familiar ou situação individual.
- Visita domiciliar é encontro que acontece na casa da família, não na unidade.
- Grupos são atividades coletivas: SCFV, grupos de educação financeira, etc.
Cada um tem código no RMA. E cada um é contado como "atendimento" para efeito de cálculo de IGD.
Aí está o ponto crítico: se o técnico faz visita domiciliar mas não registra porque "vai fazer depois", aquela visita não entra no RMA. Não conta para IGD. O município deixa de receber repasse por aquele atendimento que realmente aconteceu.
Muitos CRASs perdem receita federal porque seu trabalho está "invisível" — não registrado ou registrado de forma incompleta.
RMA com integridade versus RMA "adivinhaçao"
Um RMA com integridade é aquele em que o prontuário da família está estruturado, cada atendimento foi registrado no dia em que aconteceu, frequência em grupos foi anotada, e ao fim do mês o RMA é consolidado a partir desses registros já existentes — não é reconstruído de memória ou planilha pessoal.
Um RMA "adivinhaçao" é montado no último dia do mês: coordenador reúne a equipe, cada um traz caderno, ninguém lembra muito bem, números são estimados. Resultado: números inconsistentes, dados que não batem com realidade, ou subestimado porque muita coisa ficou "invisível".
Governo federal valida RMA comparando com CadÚnico (para ver se número de famílias atendidas é plausível) e com balancete do CRAS (para ver se gastos fazem sentido). Se há inconsistência muito grande, há auditoria.
Mas além disso: RMA subestimado é receita subestimada. É dinheiro federal deixando de chegar porque dado não foi registrado.
Conexão entre gestão operacional e financeira
Esse é o ponto que muitos gestores não fazem: a qualidade do trabalho operacional do CRAS (como funciona a acolhida, como é feito o atendimento, como é registrado) tem impacto direto na receita municipal.
Se o CRAS funciona bem, atende bem, registra bem — IGD sobe, cofinanciamento sobe, município recebe mais dinheiro federal, pode investir mais em estrutura. É círculo virtuoso.
Se o CRAS não registra bem, atende pode ser bom ou não (ninguém sabe), RMA é vago, IGD é baixo, cofinanciamento é baixo, não há dinheiro para investir. É círculo vicioso.
Um sistema especializado em SUAS que integra prontuário, registro de atendimento, grupos, e gera RMA automaticamente — quebra esse ciclo vicioso. Você registra bem porque o sistema facilita, o RMA sai com integridade, o IGD reflete seu trabalho real, e a receita chega.
Muitos municípios estão recebendo menos cofinanciamento federal que deveriam, simplesmente porque seu RMA não reflete sua atividade real. Isso é perda de dinheiro público que poderia estar financiando estrutura melhor para CRAS e melhor proteção à população.
Se seu município tem dúvida sobre o valor do seu IGD ou já recebeu questionamento de auditoria, vale revisar como está a qualidade de registro de RMA — e considerar uma ferramenta que garanta integridade de dados.