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CRAS e PAIF

Busca ativa no território: estruturar sem perder o registro

Como estruturar a busca ativa no território de abrangência do CRAS e evitar que o trabalho de campo se perca por falta de registro sistemático.

02 de junho de 20266 min de leitura

Busca ativa é uma das atribuições mais citadas — e uma das mais mal registradas — do trabalho do CRAS. A ideia de sair do balcão e ir ao território identificar famílias que não chegam espontaneamente até a unidade é consenso técnico. O problema aparece depois: quando a visita termina e ninguém sabe dizer, com precisão, quantas famílias foram identificadas naquele mês, quantas foram efetivamente incluídas em acompanhamento e quantas ficaram apenas como "visita realizada" sem desdobramento.

O que é busca ativa, no sentido que a norma usa

Busca ativa é a atuação proativa do CRAS para localizar e abordar famílias em situação de vulnerabilidade que não acessam espontaneamente os serviços socioassistenciais — seja por desconhecimento, dificuldade de deslocamento, isolamento social ou desconfiança em relação ao poder público. A Resolução CIT nº 18/2024 e as diretrizes do PROCAD-SUAS (Programa de Fortalecimento das Capacidades do CadÚnico e do SUAS) reforçam a busca ativa como estratégia estruturada e não como ação esporádica de campanha.

O ponto central é que a busca ativa não é uma ação isolada: ela se conecta ao diagnóstico socioterritorial do CRAS, que indica onde estão concentradas as vulnerabilidades não cobertas, e alimenta diretamente o Cadastro Único e o acompanhamento pelo PAIF ou PAEFI, conforme o caso identificado.

As etapas que costumam aparecer na prática

Independentemente do porte do município, o trabalho de busca ativa costuma passar por fases semelhantes:

  1. Diagnóstico do território. Antes de sair a campo, a equipe usa dados já disponíveis — CadÚnico, indicadores de vigilância socioassistencial, informações de outras políticas (saúde, educação) — para identificar áreas prioritárias. Esse cruzamento de fonte de dado é aprofundado no texto sobre diagnóstico socioterritorial.
  2. Definição de público-alvo e planejamento da abordagem. A equipe decide quem procurar (famílias sem CadÚnico atualizado, famílias com criança fora da escola, idosos em isolamento, entre outros perfis) e organiza rotas e horários de visita.
  3. Abordagem em campo. A visita domiciliar ou comunitária propriamente dita, feita por técnico de referência, muitas vezes em parceria com agente comunitário de saúde ou outro profissional do território.
  4. Registro imediato do que foi encontrado. É a etapa mais frágil operacionalmente: a informação levantada em campo precisa ser registrada antes que se perca ou se misture com a próxima visita.
  5. Encaminhamento. Conforme o que foi identificado, a família é encaminhada para inclusão no CadÚnico, para acompanhamento do PAIF, ou, em situação de violação de direitos, para o CREAS via fluxo de referência e contrarreferência.
  6. Acompanhamento e avaliação. Verificação se o encaminhamento gerou de fato inclusão em serviço ou benefício, e não apenas um registro de visita sem desdobramento.

Onde o registro costuma falhar

O ponto mais comum de falha não é a etapa de campo — a equipe técnica geralmente sabe fazer a abordagem — e sim o que acontece depois que ela volta para a unidade. Alguns padrões se repetem:

  • A visita fica anotada só em caderno de campo, e a informação nunca chega a virar registro formal no prontuário da família, porque transcrever tudo manualmente é trabalho que a equipe posterga.
  • Duas técnicas visitam a mesma área sem saber uma da outra, porque não há visão compartilhada de quais famílias já foram abordadas e quais ainda não.
  • A família identificada na busca ativa nunca aparece no RMA, porque o registro de campo e o registro mensal de atendimentos são feitos em sistemas — ou planilhas — diferentes, sem integração.
  • O gestor não consegue responder, no fim do mês, quantas famílias foram identificadas por busca ativa e quantas efetivamente entraram em acompanhamento, porque essa contagem exigiria cruzar caderno de campo, prontuário físico e CadÚnico manualmente.

Esse último ponto é especialmente relevante para a vigilância socioassistencial: a busca ativa só vira dado de gestão quando o registro de campo é estruturado desde o início, não reconstruído a posteriori.

LGPD e o dado coletado em campo

A busca ativa envolve, por natureza, coleta de dado sensível de família em situação de vulnerabilidade — muitas vezes antes mesmo de haver um vínculo formal de atendimento estabelecido. Isso exige cuidado redobrado com o que é anotado em caderno físico ou celular pessoal do técnico durante a visita, um tema que ganha ainda mais peso à luz da LGPD aplicada à assistência social.

Uma boa prática, adotada por equipes mais maduras, é tratar qualquer anotação de campo — mesmo em caderno de papel — como dado sob a mesma responsabilidade de sigilo do prontuário formal, e não como rascunho descartável. Isso significa não deixar o caderno de campo em local de acesso público, não compartilhar informações de famílias visitadas em grupos de mensagem informais da equipe, e transcrever para o registro formal o quanto antes, reduzindo o tempo em que o dado sensível existe apenas em suporte físico.

Estruturar a busca ativa com registro digital

Um sistema de gestão que permita registrar a visita diretamente no momento em que ela acontece — inclusive sem conexão de internet estável, comum em áreas rurais e periferias — resolve o gargalo central da busca ativa: a transcrição posterior. Quando o técnico registra a abordagem no próprio momento da visita, o dado:

  • Fica imediatamente vinculado ao prontuário da família (ou cria um pré-cadastro, se a família ainda não tinha prontuário);
  • Evita sobreposição de rota entre técnicos diferentes, porque todos enxergam quais famílias e endereços já foram visitados no período;
  • Alimenta automaticamente os indicadores de gestão, sem que ninguém precise consolidar manualmente ao final do mês;
  • Preserva a rastreabilidade do encaminhamento — se a busca ativa resultou em inclusão no PAIF, no CadÚnico ou em encaminhamento ao CREAS, isso fica registrado como parte da história daquele caso, não como uma anotação solta.

O SEIVA foi desenhado para operar em campo, com registro offline sincronizado quando a conexão volta, exatamente para que a busca ativa não dependa de o técnico "lembrar de passar tudo a limpo" depois.

Se a busca ativa no seu município ainda depende de caderno de campo e memória para virar registro formal, vale conhecer como o SEIVA estrutura esse fluxo do início ao fim.

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